sábado, 27 de junho de 2009

Corações e Pulmões..

Ele tinha um grande armário verde acinzentado que ficava no canto mais escuro do quarto pequeno e úmido, e de vez em quando se pegava de frente às suas 12 portas e ao espelho redondo, sempre balbuciando e raiando consigo mesmo, era quase que um ritual, sempre aos domingos a noite lá estava ele. Guardava porém, na maior gaveta que ficava no topo e que sempre precisava de um banquinho de madeira pra poder alcançar os pertences pois era a única com cadeado, lá ele tinha escondido vários corações, de todas as cores e de vários tamanhos, alguns por motivo que ele fazia questão de não entender, ainda sangravam (o que causava um enorme transtorno já que sempre tinha que limpar e separar os ensangüentados dos limpinhos), uns tão mirradinhos que por vez ou outra tinha vontade de jogar fora, só não jogava porque achava maldade demais chegar a esse ponto. Na gaveta que dava o nome de “sete” estavam os seus prediletos, os pulmões, ah! Os pulmões, por esses tinha um verdadeiro esmero!, guardava-os na gaveta do meio na altura do tórax, (pra que não tivesse nenhum trabalho quando quisesse os sentir), fizesse qual tempo ele sempre tinha um tempo para conversar com eles e pra contar como tinha sido a semana (pois só no fim da semana tinha tempo pra eles, pois tinha tentado todo dia e enjoara). Na menor gaveta, que tinha o péssimo costume de não limpar, e sempre via sair algumas baratas, sapos e até ratos! Lá estavam as centenas de orelhas, que, diga-se de passagem, ele já não fazia tanta questão em usá-las, pelo simples fato de sempre trazê-las pra casa sujas de terra, poeira e tudo de ruim que podia entrar naqueles pequenos orifícios. As únicas peças que ele até morreria se esquecesse em casa eram: a boca (que a apelidava carinhosamente de “the biggest” ou a grandona), e um restinho de massa cinzenta, que sempre esquecia no bolso da camiseta preta de botões amarelos, junto com massa de modelar, algumas moedas da sorte e as chaves do armário. Com essas três peças, a boca, a massa cinzenta e a camisa preta, se achava impecável onde quer que fosse. Num dia desses qualquer depois de uma noite regada a visitas constantes ao armário, acordou de um susto, como que em um pesadelo, e viu que a tranca da gaveta mais alta tinha sido arrebentada, e na parede, no chão e em todo o quarto estavam espalhados os corações, corações grandes vermelhos como maçãs e até aqueles do tamanho de ameixas secas, todos estavam estatelados no chão, e no rápido instante entre levantar-se (do susto) da cama, abrir os olhos entender o que tinha acontecido, ele sem pensar duas vezes saiu correndo com tanta força que parecia que ia atravessar o armário, pisando, chutando e afastando com a mão todos os corações sujos de sangue (alguns tão duros e pretos quanto pedras de carvão mineral), foi ofegante à gaveta do meio, e pra sua felicidade viu que todos estavam lá, sentiu-se como que no primeiro fôlego quando se dá um grande mergulho, aliviou-se, contou-os um a um e conferiu, estavam todos lá, todos os pulmões, limpinhos e reluzentes. E como os corações já estavam no chão e as baratas e ratos se encaminhavam de fazer o que a natureza lhe reserva, colocou todos os imundos corações numa sacola de feira e dentro de um saco preto de lixo e amarrou com uma linha bem resistente. Sentiu-se liberto daquele fardo, e sem mais nenhum coração pra empestar o quarto com aquele fedor ocre, uma mistura de cheiro de hospital com aquela massinha branca que se coloca nos dentes antes de uma obturação, ele se sentiu mais feliz e satisfeito, pois agora só teria que se preocupar com seus lindos e reluzentes pulmões..., coração nenhum pra ele agora era problema, pois só davam trabalho, junto com ratos, baratas e muitos grilos. Estava perfeito agora, só ele e os pulmões.

Nonato Costa 27 de junho. 2:20pm.

2 comentários:

Luana Sena disse...

esse blog sim eu vou favoritar :]

Susyanne Oliveira disse...

assino embaixo!

bj